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Artigo

A importância do conhecimento para o futuro desenvolvimento de Portugal

Por: M. Teles Fernandes

A Estratégia de Lisboa que pretendia colocar a Europa na frente do Mundo, no que diz respeito ao conhecimento e ao desenvolvimento económico, está longe de vir a ser uma realidade. A derrapagem já foi assumida e a recalendarização para 2014 assume-se agora como uma derradeira oportunidade para colocar a Europa a par e passo com os EUA e o Japão.

Portugal, por seu lado, ainda se encontra em pior situação relativa no que diz respeito ao seu posicionamento quando comparado com os demais parceiros europeus, devido a alguns factores intrínsecos que contribuem para esse atraso estrutural. Um deles, apontado por muitos como o mais estruturante, é a falta de conhecimentos e competências que nos caracteriza quando nos comparamos com os países mais avançados da Europa. Nesta comparação, a Irlanda deixa-nos sempre com um sabor amargo na boca, por razões sobejamente conhecidas de todos.

Abordemos então o tema do conhecimento. Foi um maior conhecimento sobre navegação pelas estrelas, em comparação com os restantes países europeus, adquirido dos invasores mouros que sabiam como vaguear pelo deserto orientando-se pelas estrelas, que nos permitiu ir “por mares nunca doutros navegados” na descoberta do caminho marítimo para a Índia, naquele que foi o primeiro grande passo da globalização da economia e da civilização. Mas foi a existência de uma visão e de uma missão que nos levou à necessidade de adquirir esse conhecimento. Essa visão e essa missão, por ventura demasiado avançadas para a época, colocaram-nos como líderes da inovação perante o resto do mundo. Contudo, por agora, foquemo-nos apenas no tema “conhecimento”.

Se abordarmos o “conhecimento” como uma indústria, de resto não se percebe porque não se trata o mesmo como tal, poderemos, à semelhança do que acontece noutras áreas da actividade económica, estabelecer um conjunto de grandes actividades de base que definem a indústria de uma forma geral e global. A este fluxo processual de actividades inter-conectas chama-se, no mundo da gestão, fileira industrial. Assim, de uma forma genérica, as grandes actividades de base da fileira industrial do “conhecimento” são a “investigação”, o “desenvolvimento” e a “disseminação”, conforme fluxo representado na figura ao lado.

A “investigação/pesquisa” refere-se às actividades de formulação de teorias e descoberta de novos conhecimentos e da pesquisa e estudo da informação que suporta as novas teorizações. É a área da investigação de fronteira ou de base, que serve de suporte ao desenvolvimento de futuras indústrias e produtos.

O “desenvolvimento/aplicação” refere-se à fase de aplicação dos resultados vindos da investigação em aplicações práticas, que poderão ter aplicações tecnológicas ou processuais. É a área da investigação aplicada que transforma teorias em produtos e cria novas indústrias.

A “disseminação/implementação” refere-se à derradeira fase em que os conhecimentos e respectivas aplicações práticas vindas das actividades anteriores da fileira são implementados a uma maior escala na economia e na sociedade, provocando um impacto geral. É a área da produção aplicada aos contextos favoráveis.

Se considerarmos esta definição de fileira do conhecimento como correcta, poderemos facilmente compreender porque atravessamos nos nossos dias tantas dificuldades estruturais. Ao contrário de outros tempos em que fomos nós a criar o conhecimento, mesmo que para isso tivéssemos de aprender as bases anteriores com outros, hoje limitamo-nos na esmagadora maioria da nossa actividade económica a aplicar os conhecimentos que outros desenvolvem. O caso da Auto Europa pode ser considerado paradigmático como ilustração desta constatação. Perdemos a capacidade de criar novos conhecimentos de uma forma genérica. E quando o fazemos, porque ainda existem casos excepcionais em que acabamos por nos comparamos com os melhores, fazemo-lo de forma desgarrada e desalinhada, isto é, fora de qualquer linha de orientação estratégica e, consequentemente, sem integração em qualquer visão ou missão nacionais, que de resto não parecem existir, tanto a nível político com a nível social.

Se atendermos à fileira do conhecimento, compreendemos claramente que nos temos limitado nas últimas décadas, ou mesmo séculos, a repetir o que outros criaram. Disseminámos e implementámos, mesmo assim por vezes da forma errada, aquilo que outros países criaram, tanto ao nível industrial como aos níveis social, político e de mudança de mentalidades. Temo-nos limitado a participar no desenvolvimento do mundo como simples “seguidores”, esquecendo-nos que já um dia estivemos, como nação, na liderança da mudança.

A solução parece, com base naquela que é a fileira do conhecimento, ser de alguma forma simples de entender. Se alterarmos o nosso paradigma nacional de “seguidores” para “líderes”, baseando-nos no desenvolvimento do conhecimento necessário para a persecução de uma visão e missão nacionais, estaremos a contribuir positivamente para a Estratégia de Lisboa. Se em tempos idos a missão e a visão que nos orientavam foram definidas pelos nossos líderes nacionais, hoje parece que nem temos de esperar por isso. A Europa a que pertencemos já se encarregou de definir aquela que é a nossa missão e visão enquanto grupo de nações que se vão a pouco e pouco transformando em regiões, mas que têm a obrigação de se alinharem pela visão e missão conjunta do todo que é a U.E.

Aos governantes nacionais resta a função de fazer cumprir a missão e a visão europeias. Sobre todos nós, indivíduos e empresas, principalmente aos primeiros, recai-nos a obrigação de participar voluntária e positivamente na persecução das mesmas.

Assim, quer queiramos quer não, independentemente da idade, género e profissão de cada um de nós enquanto indivíduos, compete-nos a obrigação quase missionária de desenvolvermos novas e melhores competências para transformar Portugal num país do “conhecimento”. E é melhor que o façamos depressa para nosso bem e da Europa.

 

 
 

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Samora Correia  -  Açores  -  Porto  -  Lisboa

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