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Artigo

O Papel do Estado na Economia
Por: M. Teles Fernandes

O Estado e o mercado, de acordo com Moon (1996), são os dois principais princípios organizacionais da nossa sociedade a nível mundial, sendo que ambos se interligam frequentemente em delicadas situações, ora de conflito ora de cooperação, tanto a nível local, nacional ou internacional. Enquanto o mercado é conduzido por forças individuais motivadas pelo lucro, o Estado tem servido como regulador artificial das falhas de mercado. Ao nível local ou das nações, o Estado e o mercado têm procurado uma gestão económica eficaz, resultando numa variedade de misturas de soluções como a do "laissez-faire" Anglo-Americano, o estruturalismo Keynesiano, a industrialização e os modelos de economia socialista. A nível internacional, as forças do mercantilismo ou do mercado liberal têm criado inúmeros feudos, de forma eficiente e equilibrada, na gestão do comércio internacional.

Em termos macro económicos, a eficiência económica é algo que, de acordo com Luksetich (1999), vai muito mais para além de produzir bens ao custo mais baixo possível. Eficiência económica envolve providenciar os indivíduos com os bens e serviços que eles desejam, em quantidades, qualidades, lugares e em ocasiões temporais que eles necessitam, com uma utilização mínima dos escassos recursos da sociedade. Alguns economistas argumentam que se os mercados forem competitivos, se a informação certa estiver disponível, se os recursos tiverem mobilidade e se os indivíduos envolvidos nas transacções assumirem o custo completo e receberem os benefícios completos dessas transacções, será atingida a eficiência económica. Contudo, é sabido que esta não é a realidade, o que leva os economistas a aceitar que existem falhas de mercado, sendo que alguns deles admitem que essas mesmas falhas necessitam de correcção por via da intervenção do Governo de forma a mitigar os efeitos que as ditas possam ter no mercado e na economia.

De acordo com o sítio na web do "The Social Studies Help Center" existem quatro condições que levam a falhas de mercado:
(1) Quando não existe uma competição adequada - a globalização e a era das fusões e aquisições tem aumentado a dimensão e diminuído o número de empresas em muitas áreas da actividade económica. A maior ameaça que um monopólio pode apresentar é recusar aos consumidores a possibilidade de escolha e de competição entre concorrentes, o que origina falhas de mercado.
(2) Os compradores e os vendedores não estão bem informados - sem informação, serão tomadas decisões erradas, o que leva a erros e, consequentemente, a falhas de mercado.
(3) Os recursos não são livres para se movimentarem de uma indústria para outra - este fenómeno é conhecido como imobilidade dos recursos, sendo um problema difícil em qualquer economia. A eficiente localização dos recursos requer que o solo, a força laboral, os empreendedores e o capital sejam livres de se moverem para mercados que possam dar retornos mais elevados. A impossibilidade de tal acontecer cria falhas de mercado.
(4) Os preços não reflectem os custos razoáveis de produção - esta situação representa um problema na medida em que não sendo a riqueza redistribuída de forma correcta e sendo os preços muito elevados o acesso aos produtos está limitado, o que se torna numa falha de mercado. Como podemos verificar, existem situações de falhas de mercado tanto do lado da procura como do lado da oferta, sendo que o tipo de causa não é indicativo do tipo de efeito que tem no mercado, como veremos a seguir.

O mesmo sítio define que "externalidades" são efeitos económicos que afectam uma terceira parte não directamente relacionada com as transacções em causa, podendo ser de efeito negativo ou de efeito positivo para essa terceira parte. Ainda no mesmo sítio da Internet, "bens públicos" são definidos como bens ou serviços providenciados pelo Estado (Governo) porque ocorreu uma falha de mercado e o mercado não consegue providenciar tais bens ou serviços. Nalguns casos é do interesse dos consumidores (público) que o mercado não providencie os bens ou serviços, como, por exemplo, a defesa nacional, a segurança pública e a justiça, que podem ser vistos, por várias razões, como não devendo ser providenciados pelo mercado privado.

Independentemente da opinião de muitos académicos em favor do funcionamento do livre mercado concorrencial para resolver as falhas de mercado (Cordato, 1980) (MacKenzie, 2002) (Winston, 2006), outros defendem que deverá ser o Estado a intervir no mercado e a criar soluções para resolver as falhas de mercado existentes (Arrow, 1962) (Stiglitz, 1998) (Frank, 1999). Apesar da sua posição filosófica, Stiglitz identifica quatro problemas para o Estado (Governo) na resolução das falhas de mercado: (1) problemas relacionados com o compromisso e participação do Estado; (2) problemas com a negociação com as diferentes partes interessadas; (3) problemas com a competição imperfeita criada pela intervenção do Estado na economia; e (4) problemas com a informação assimétrica entre o Estado e as outras partes interessadas.
É com base nesta potencial incapacidade do Governo em resolver em absoluto os problemas causados ou os efeitos das falhas de mercado que alguns autores, conforme visto atrás (Escola Austríaca), defendem que as Falhas do Governo ("government failure"), podem ser maiores do que as falhas do mercado, o que deve levar à não intervenção do Estado na economia, devendo este, sim, deixar para o mercado (compradores e vendedores) esse trabalho de auto-regulação, através do equilíbrio das forças em jogo (procura e oferta) e da resolução dos problemas por via da inovação. Lee e McKenzie (1993) sugerem que os mercados têm um ciclo de vida e morte semelhante a outros ciclos de vida e que o prolongamento artificial de uma empresa ou indústria através de intervenção governamental pode desequilibrar o balanço da economia. Para os autores, o mero esforço artificial de salvar essas indústrias apenas serve para piorar as condições dos elementos mais pobres da sociedade enquanto mina simultaneamente qualquer possibilidade de crescimento económico.

É neste contexto de procura de perfeito equilíbrio do mercado, mesmo que se tenha de admitir que o mesmo objectivo possa ser utópico, que se coloca o desafio às empresas para criarem soluções que possam, simultaneamente, resolver problemas relacionados com as falhas de mercado, quer sejam estas expressas por externalidades positivas ou negativas, e criar valor para elas próprias de forma a se tornarem sustentáveis e duradouras. A este conjunto de falhas, as do mercado e as do Governo (Estado), podemos chamar, de uma forma genérica, de "falhas da economia", como se pode depreender de McIntosh (2006), de Weisbrot (2005) e de Brannam (2006). Estas falhas da economia incluem, no seu conjunto, as falhas do mercado, enquanto ambiente livre em que as forças da procura e da oferta se equilibram de forma automática e natural, qual "mão invisível" que Adam Smith (1776) viu como característica dominante das economias capitalistas, e as falhas do Governo ("government failures"), enquanto ambiente controlado pelo Estado para eliminar as falhas do mercado, por via dos impostos ou dos subsídios, qual jogo de forças e desejos políticos para influenciar a economia.

O resultado é que, se por um lado temos as falhas do mercado que desvirtuam o equilíbrio natural das forças da oferta e da procura, por outro temos as Falhas do Governo criadas a partir da tentativa de resolver as primeiras, mas que não o conseguindo fazer, criam novos desequilíbrios e voltam a criar externalidades, tanto de efeitos positivos como negativos, para diferentes actores envolvidos directa ou indirectamente nas transacções efectuadas no âmbito do mercado. Alguns académicos e mesmo políticos opõem-se claramente à intervenção do Estado na regulação das falhas da economia. Para Redwood (2006) o Estado devia reduzir a sua intervenção para quase nada ao nível da regulamentação das actividades económicas e dos mercados, reduzir os impostos sobre as empresas e sobre os indivíduos para os mínimos estritamente necessários para sustentar a criação e manutenção de infra-estruturas que suportem as actividades económicas e outros serviços que o mercado não disponibiliza, como segurança, e reduzir ao máximo a sua intervenção directa em actividades económicas que possam ser prestadas pela iniciativa privada, mas, por outro lado, o Estado devia facilitar o desenvolvimento da mesma iniciativa privada, eliminando barreiras à criação de empresas, ao desenvolvimento da inovação e facilitando o processo de aquisição e desenvolvimento do conhecimento. Não sendo o objectivo deste trabalho olhar para a economia sob o ponto de vista macro, não podemos deixar de a abordar e de mencionar que a intervenção do Estado na economia influencia de forma drástica a capacidade de intervenção da iniciativa privada na mesma economia. Desta forma, a iniciativa privada está sujeita ao mercado, com ou sem as suas falhas, e ao Estado, também com ou sem as suas próprias falhas, de onde têm origem as causas para a criação de negócios, públicos ou privados. Para percebermos essa relação entre Estado e economia que afecta os negócios, teremos de analisar o processo de desenvolvimento da economia e a forma como o Estado intervém no mesmo, conforme figura, ainda que de forma relativamente simplista e superficial.

A base inicial para o desenvolvimento económico de qualquer país é constituída pelas poupanças ("savings") que o país é capaz de criar internamente ou pela sua capacidade de atrair as poupanças criadas noutros países e fazê-las aplicar em investimentos produtivos e geradores de valor. De facto, o investimento gerado em qualquer país vem da aplicação dos recursos economizados (poupanças) pelos constituintes do mesmo país em acções criadoras de valor que possam gerar um retorno para essas mesmas poupanças ("savings") superior ao que os seus titulares poderão obter se as investirem em títulos de capital garantido, como as obrigações do tesouro ("government bonds").


Quanto maior for o investimento na economia de um determinado país maior será a produtividade obtida pelo mesmo país, conforme refere Freeman (2002). A produtividade está directamente relacionada com a maior ou menor quantidade de dinheiro investida na economia de qualquer país, na medida em que é o investimento que facilita o incremento do produto interno bruto através do aumento da capacidade produtiva e inovadora. O aumento da produtividade advém da criação de "mais e melhor valor".

Por via da redução dos custos de produção, podem desenvolver-se adequadas políticas de preço que induzem melhoria na competitividade da economia de um determinado país relativamente às economias de outros países. Sendo mais competitivo, um dado país estará apto a exportar mais e a importar menos do que os seus concorrentes, assumindo-se mais como expedidor (exportador) do que como receptor (importador) de bens e serviços, o que provoca uma relação contrária no fluxo de capital.

O excedente obtido na balança de pagamentos com o exterior transforma-se em riqueza acumulada dentro da economia do país, podendo esta ser direccionada em dois diferentes sentidos: consumo ou aforro. O aforro leva à acumulação de mais capitais que podem reentrar no circuito percorrido anteriormente e o consumo poderá levar à utilização do dinheiro na aquisição de bens e serviços produzidos pela própria economia do país (o que mantém o capital em circuito fechado) ou produzidos por outros países, o que pode contribuir para a inversão dos resultados anteriores na balança externa de pagamentos. O esvaziamento dos capitais de qualquer economia leva inevitavelmente à redução da capacidade de investimento e, consequentemente, à diminuição da produtividade, competitividade e riqueza, resultando assim no seu todo como falhas da economia.

O papel que o Governo pode ou deve ter na gestão e controlo deste fluxo, de forma a evitar falhas da economia, é visto de diferentes formas por economistas, políticos e outros agentes, como já abordamos anteriormente. Sem querermos fazer qualquer juízo de valor sobre a forma como o Estado deve intervir numa economia de carácter predominantemente capitalista, que pode tender mais para uma postura intervencionista, estilo Estado Socialista, ou mais para uma postura quase nada intervencionista, estilo neo-liberal, até porque o objectivo deste trabalho não é o de tecer opiniões ou avaliar conceitos sob o ponto de vista político, devemos tentar compreender como poderá o Estado, enquanto entidade que governa uma economia dentro das suas fronteiras geo-políticas, contribuir para a eliminação das "falhas da economia", no âmbito do modelo apresentado anteriormente.


Deixando a relação com as "economias" (savings) para o fim desta análise, o Estado na sua relação com o "investimento" pode intervir, contribuindo ou não para a eliminação das falhas da economia, através de políticas laborais e de mercado, por via de regulamentações laborais e mercantis e da maneira como suporta os investimentos, independentemente da origem do mesmo, interna ou externa ao país, e da forma como surge, por via directa através do empreendorismo ou por via indirecta através da aquisição de capitais das empresas, cotadas ou não em bolsa, pelos constituintes da economia.

Na sua relação com a "produtividade", o Estado contribui para o resultado da economia através de políticas de educação e formação (criação de competências) e de infra-estruturas e de energia (criação de meios), independentemente da sua intervenção nas actividades respectivas. Decorrente dessas políticas, o país pode estar mais ou menos apto para fornecer as infra-estruturas e as competências humanas adequadas e necessárias ao desenvolvimento da sua economia. Os custos com o funcionamento do próprio Estado, independentemente de acrescentar ou não valor para a economia, contribuem para esse resultado, o que deve ser tido em consideração para efeitos políticos e económicos.

A "competitividade" de um país é, principalmente, o resultado da soma da competitividade do seu tecido empresarial (que acrescenta valor), pelo que a relação do Estado com a "competitividade" está ligada à capacidade que tem para estabelecer acordos comerciais com outros Estados de forma a facilitar o escoamento dos bens e serviços que a sua economia produz, o que traz consequentes compensações, e com a política monetária (por exemplo, valor da moeda) que pode ser utilizada como ferramenta indutora da "competitividade".

A maior criação de "riqueza" resulta do crescimento que a competitividade pode trazer à economia de um país. Esta "riqueza" pode ser direccionada para o consumo ou para o aforro, como vimos anteriormente. As políticas fiscais impostas (impostos sobre a geração de riqueza) pelo Estado afectam a quantidade de "riqueza" disponível. Da mesma forma, as políticas do Estado também têm implicações na escolha do destino da "riqueza" produzida. Se a riqueza, como extremo, for toda aplicada no consumo, este pode retirar competitividade à economia por via do crescimento da inflação daí resultante ou da saída de divisas para o exterior para adquirir bens e serviços procurados. Se a riqueza, também como extremo, for toda canalizada para o aforro, pode-se criar deficits de consumo e excessos de capitais, que não sendo aplicados internamente em investimentos por falta de capacidade de absorção, terão de ser aplicados no exterior, fortalecendo a produtividade e competitividade de outras economias.

Na relação com as "economias" ("savings"), o Estado intervém através das suas políticas fiscais (impostos) e monetárias (taxas de juro), induzindo mais ou menos vontade nos constituintes para manterem ou aplicarem as suas "economias". Da mesma forma, através de políticas fiscais (impostos), o Estado influencia o consumo dos produtos produzidos internamente e por via de políticas fiscais (impostos), monetárias (valor da moeda) e comerciais ("trading") influencia o consumo de produtos importados. É também por via das políticas fiscais (impostos) e monetárias (valor da moeda) bem como do sistema interno (burocracia e limitações a investimento externo) que o Estado influencia a entrada de capital externo na forma de investimento directo estrangeiro ("foreign direct investment") para o investimento interno. As políticas fiscais e monetárias influenciam ainda a entrada de capitais externos na forma de remessas de imigrantes para reforço das economias internas do país.

Dependente do vector político subjacente, alguns economistas, políticos e outros actores e "opinion makers" da economia e política defendem que o Estado deve ter uma intervenção activa nas próprias actividades de criação de valor ou de suporte a essas, para além das definições de políticas, enquanto outros defendem uma intervenção nula ou minimalista do Estado, deixando-lhe as áreas da segurança externa (nacional) e interna (pública), da justiça, das relações internacionais, das políticas sociais (saúde e reforma), da investigação pura (investigação de ponta), e da estabilidade política, constitucional e governamental, entregando todas as restantes actividades económicas nas mãos do mercado. De qualquer das formas, o Estado é um actor contributivo chave para as falhas da economia, como refere Weisbrot (2002), através do estabelecimento de políticas que não alavancam ou facilitam o crescimento.

É da análise da relação do Estado com a economia, que surge a identificação das falhas da economia, que são o somatório das falhas do mercado e do Governo. Tanto umas falhas como as outras criam oportunidades e ameaças, independentemente das externalidades que possam causar, de efeitos positivos ou negativos, e que podem ser aproveitadas pelas empresas, principalmente para suprir falhas do lado da oferta ou para resolver desequilíbrios do lado da procura.

 

 
 

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