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Artigo

O PRODUTO COMO FACTOR DO LUCRO
Por: M. Teles Fernandes

Partindo do princípio que a principal missão das empresas é o lucro, deve dar-se a importância necessária a dois factores determinantes para o efeito: volume de vendas e margem do produto. O volume potencial de vendas é uma consequência da dimensão do mercado e do número de concorrentes, como vimos num artigo anterior desta série. Neste artigo iremos analisar os factores determinantes para a construção da margem do produto.

A margem que o produto providencia é resultado de um conjunto de factores múltiplos que, conjuntamente, interferem e contribuem para determinar a diferença entre os custos e o preço de venda do referido produto. Assim, se identificarmos como podemos chegar a esses dois resultados, estaremos aptos a estabelecer um objectivo para a margem a obter.

O preço de venda de qualquer produto está directamente relacionado com o valor que o mercado percepciona do mesmo. Se este valor percepcionado for muito elevado, o mercado estará disponível a pagar mais pelo produto. Se, por outro lado, o mercado percepciona um valor baixo para o produto, apenas estará disposto a pagar uma importância muito mais baixa pelo mesmo. Esta percepção, muitas vezes definida como relação preço-qualidade, é criada na mente dos consumidores através da utilização dada ao produto e do custo ou preço do mesmo, como veremos num futuro artigo.

Os custos do produto estão, para além dos custos com a matéria-prima, muito relacionados com os investimentos feitos nas áreas da inovação ou da diferenciação do produto. Produtos inovadores e diferenciados custam mais do que os seus concorrentes directos, devido à necessidade de esforço de investimento em competências, conhecimentos, tecnologias e processos sofisticados extra (como veremos no próximo artigo).

Se tentarmos construir uma matriz à volta destes dois factores, teremos quatro arquétipos de produtos, conforme figura 1.

O arquétipo "titânio" é percepcionado pelo mercado como de alto valor e é diferenciado dos demais, possuindo potencialmente elevados níveis de inovação. Este arquétipo de produto é potenciador de altas margens, apesar de poder ter custos muito elevados, sendo estes compensados pelo elevado valor que o mercado lhes percepciona. Isto é muitas vezes devido à compreensão que os consumidores têm das características do produto e dos processos envolvidos na sua produção. A exigência de manter um produto neste arquétipo leva a elevados esforços de investimento na inovação e na diferenciação do mesmo, só suportados pelo elevado preço que os consumidores estão dispostos a pagar pelo produto. As empresas têm custos elevados com a valorização desse produto, seja com matérias-primas, produção, infra-estruturas complexas, inovação contínua, tecnologia, grande capacidades de distribuição (hardware); seja com necessidade de diferenciação, informação sistemática, recursos humanos especializados, marketing intenso, vendas e serviços (software). Os produtos deste arquétipo apresentam normalmente margens sustentáveis, ainda que estranguladas pelos custos elevados. Os produtos titânio terão de investir continuamente em inovação e diferenciação de forma a permanecerem nesse arquétipo. Uma quebra no valor intrínseco (ex.: marca perde notoriedade) pode levar o produto para o arquétipo alumínio tornando o investimento altamente insustentável (ex.: cerveja Cintra). Exemplos de produtos pertencentes a este arquétipo incluem produtos farmacêuticos, software informático da Microsoft, processadores Intel, telemóveis Nokia, Mercedes e BMW, produtos com altos níveis de notoriedade, perfumes Channel. Grande parte dos produtos de mass-market encontra-se neste quadrante. Os carros Ferrari também pertencem a este arquétipo porque o processo produtivo e matérias-primas são muito elevadas (materiais de qualidade montados à mão) e os custos de diferenciação e inovação são tremendamente elevados (ex: manutenção na Fórmula 1).

O arquétipo "ouro" é definido por um valor muito elevado percepcionado pelo mercado, mas que não exige grandes níveis de sofisticação, isto é, de diferenciação ou de inovação relativamente aos produtos alternativos. Não necessitam de grande complexidade na distribuição, não têm grandes infra-estruturas de produção, não necessitam inovar com regularidade, etc. As margens destes produtos são normalmente as mais elevadas. Este tipo de mercado é pouco susceptível de encontrar muita concorrência face à enorme barreira de entrada em assumir uma posição de modelo no mercado. A construção do valor intrínseco para além do mero valor funcional é lenta e progressiva e para se atingir patamares de grande valorização são necessários muitos anos de investimento em diferenciação e inovação tecnológica. Porém, face ao baixo esforço de manutenção de valor, resulta numa maior pressão sobre as margens.

Os produtos deste arquétipo ultrapassam muitas vezes os do arquétipo "titânio" nas margens, devido à não necessidade de investimento na inovação e na diferenciação. São produtos muitas vezes de luxo, de elevado valor de estima, mas que não exigem esforços para se diferenciarem ou inovarem a si próprios. Grande parte dos produtos do arquétipo titânio passa para este arquétipo após o esforço inicial em inovação, tecnologia e diferenciação. Exemplos de produtos pertencentes a este arquétipo incluem produtos com elevada notoriedade e cujo processo produtivo é estandardizado e com custos reduzidos, cuja venda se torna fácil sem necessidade de grande esforço promocional - alguns relógios Rolex, Aspirina Bayer, serviços de consultoria McKinsey, advogado famoso. Normalmente, estes produtos ganharam notoriedade ao longo do tempo pela sua diferenciação. A indústria da ourivesaria é também típica deste arquétipo. Para manter os produtos neste arquétipo, o esforço deve estar focado em influenciar os consumidores quanto a tendências de consumo, padrões e modas (marketing).

O arquétipo "alumínio" apesar de ser percepcionado pelo mercado como de baixo valor, exige às empresas que façam elevados investimentos na inovação ou diferenciação do produto. Os produtos deste arquétipo tendem a ver as suas margens reduzidas, quando comparadas com os dois arquétipos anteriores. Frequentemente, devido à vasta difusão do produto, este é compreendido pelo mercado como muito comum e pouco diferenciado dos demais, independentemente do nível de investimento que foi feito para inovar e diferenciar o mesmo. A rejeição generalizada das novas alternativas tecnológicas de ecrãs para televisores demonstra que o mercado não valoriza as mesmas, apesar dos esforços feitos pelos fabricantes para inovar e diferenciar as ditas; a aceitação começa a surgir lentamente à medida que os preços vão baixando e os consumidores vão valorizando o produto. O preço é um factor importante do valor pelo que um produto pode tornar-se valorizado dependendo do preço que lhe for aplicado, e não dos custos. Os produtos neste arquétipo são insustentáveis e rapidamente necessitam de subir para o arquétipo titânio, ou morrem. Exemplos de produtos pertencentes ao arquétipo alumínio incluem novas tecnologias ainda não valorizadas pelos clientes; produtos muito específicos para nichos de mercados, produtos em fase crescente de valor, marcas de carros pouco reconhecidas, companhias de aviação pouco reconhecidas.

Finalmente, o arquétipo "latão" é percepcionado como de baixo valor pelo mercado e é por si só pouco inovador ou diferenciado. Os produtos deste arquétipo tendem a ser cópias de versões anteriores, com algumas melhorias que o mercado não valoriza. Os produtos deste arquétipo são percepcionados como sendo de valor meramente funcional pelo mercado, mas as empresas também não necessitam de empregar muito esforço para desenvolver esse valor. A esmagadora maioria dos produtos existentes no mercado tende a cair ou permanecer neste arquétipo, principalmente se as barreiras à entrada e à saída forem baixas. Neste arquétipo os produtos podem obter margens sustentáveis se demonstrarem bons índices de produtividade. Investimentos em produtos latão terão de ser cuidadosamente equacionados de forma a que o produto não passe para o arquétipo alumínio e deixe de ser rentável. Alguns produtos e serviços obrigatórios estão neste arquétipo e podem desenvolver bastante lucro assim como os produtos de marcas brancas e simples "commodities". Outro exemplo de produto é o serviço de transporte simples indiferenciado.

Temos, assim, que as margens dos produtos devem ser compreendidas como uma função de dois factores, valor percepcionado pelo mercado e esforço dispendido na inovação e na diferenciação do produto, sendo cada um destes ainda dependente de outros factores, como veremos nos próximos artigos.

 
 

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Samora Correia  -  Açores  -  Porto  -  Lisboa

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