CONSULTORIA, FORMAÇÃO E GESTÃO

 
 

Artigo

Da Fileira Industrial para a Cadeia de Valor
Por: M. Teles Fernandes

A capacidade de diagnosticar e formular boas estratégias empresariais tem vindo a ser cada vez mais aceite como fundamental para o sucesso de qualquer negócio. Não são apenas as grandes empresas que têm de se preocupar com as questões estratégicas dos seus negócios. As pequenas empresas devem também preocupar-se em entender quais são as melhores estratégias para os seus negócios, sob pena de deixarem de existir em função de mudanças no ambiente económico.

Se estabelecermos que a estratégia de um negócio assenta em quatro princípios fundamentais, (o “que” fazemos, para “quem” o fazemos, “como” o fazemos e “com quem” o fazemos) temos que, formular uma estratégia passa por estabelecer que produto vamos produzir (entenda-se por produto, um produto físico e ou serviço), que mercado vamos trabalhar, que processos vamos utilizar e que competências vamos necessitar. Enquanto o produto e o mercado dependem um do outro, os processos e as competências dependem dos dois primeiros. As duas últimas áreas de definição são, geralmente, entendidas como a cadeia de valor (fig. 1) de uma organização (M. Porter).

Esta, e conforme amplamente divulgado e aceite como paradigma, deve ser definida em função do ambiente em que a organização opera e do produto envolvido. Para tal, o autor desenvolveu outro modelo que permite analisar esse ambiente, conhecido pelas análise das cinco forças. Contudo, e devido à complexidade do mesmo, muitas organizações, geralmente as de menor dimensão, têm dificuldade em retirar do mesmo a informação necessária para poderem definir a sua cadeia de valor da forma mais adequada. De resto, este é um problema decorrente que vem da falta de capacidade que as organizações têm para aplicar modelos teóricos aos seus negócios e retirar proveitos dos mesmos.

De forma a facilitar este processo, é proposto que as pequenas organizações façam um exercício de análise mais simples mas que pode fornecer informação mais relevante para a formulação das estratégias de negócio. Passa este exercício pela análise simples da fileira industrial em que uma organização opera. A fileira de uma industria, tal como a cadeia de valor de uma organização, é composta por um conjunto de actividades interdependentes que têm como output um produto, ao qual vão acrescentando valor. De uma forma genérica, a primeira actividade está relacionada com a extracção de uma qualquer matéria prima, ao que se seguem as actividades de transformação de sub produtos e produtos finais e a actividade de distribuição. Contudo, não se deve cair no logro de generalizar uma fileira industrial, pois a mesma varia consoante um conjunto de factores que estão relacionados com o output final e com o cliente final.

A análise e avaliação de uma fileira industrial deve ser o mais minuciosa possível, separando todas as actividades e produtos finais de forma inconfundível, para que se possam identificar claramente as implicações que a mesma fileira pode ter na definição da cadeia de valor interna de uma organização. Propomos a análise de uma industria paradigmática entre nós: a da pedra. Assim, para efeito deste exercício, vamos fazer a análise da fileira industrial do granito.

A primeira actividade da fileira é a extracção do referido granito (ver fig. 2). Esta actividade comporta a escavação e corte dos blocos de granito para posterior utilização. Para o efeito utiliza um conjunto de equipamentos e competências próprias. A actividade produz ainda desperdício, ou seja, blocos de granito com formatos inadequados para o corte ou sem as características necessárias para posterior aplicação (qualidade inferior).

O produto saído da primeira actividade, os blocos de granito e os desperdícios, tem diferentes aplicações. Assim, pode ser utilizado para produzir: (1) revestimentos para a construção (ladrilhos para pavimentos ou revestimento de paredes); (2) cantarias para a construção (soleiras, peitoris e ombreiras para portas e janelas e jazidas funerárias); (3) mobiliário (tampos e outros elementos para móveis); (4) pavimentos urbanos (paralelepípedos e placas de pavimento); (5) estatuária (artística, religiosa e funerária); e, finalmente, (6) inertes para a construção (betão armado e ou betuminoso).

Estes diferentes produtos implicam diferentes utilizações. Alguns vão terminar a fileira junto do cliente final ou utilizador, outros vão continuar em fileiras subsequentes e outros ainda vão integrar outras fileiras. Olhemos para um deles em mais pormenor

Revestimentos para a construção: na generalidade os produtos são ladrilhos para pavimentos ou para revestimento de paredes, produzidos de forma estandardizada, de acordo com padrões e normas definidas.

As actividades inerentes são o corte dos blocos em chapas laminadas de espessuras definidas e o corte destas em ladrilhos finais para aplicação. Esta actividade é geralmente muito automatizada e com volumes de produção elevados. Qualquer produto por medida ou fora da estandardização implica processos e custos acrescidos, dando ao produto mais valor acrescentado.

Os produtos estandardizados são, geralmente, distribuídos através de redes de distribuição. Os produtos não estandardizados são distribuídos pelo fabricante directamente ao cliente (fig. 3).

Estas variações têm implicações directas nas actividades principais da cadeia de valor da organização, especialmente na de produção, na da logística das saídas e na de marketing e vendas.

O fazer os dois tipos de produtos em simultâneo por uma mesma organização implica que, para além dos diferentes processos de produção e até de logística das saídas, a organização tem de desenvolver a sua actividade de marketing de forma diversificada, para diferentes mercados com requisitos específicos e em que o produto pretendido têm diferente valor acrescentado, o que dificulta o processo de satisfação de qualquer um deles.

Só percebendo realmente o produto que vamos fabricar e o cliente que vamos servir podemos estabelecer a melhor cadeia de valor para a organização. Se o produto está mal definido e ou obriga a dispersão de processos e recursos, o que implica que o cliente também não está bem definido e não é bem compreendido, corremos o risco de perdermos focalização no que é realmente importante para o sucesso do negócio.

As empresas têm de ser muito boas no que fazem, mesmo que apenas façam uma coisa. Essa especialização e focalização trará imensos resultados a longo prazo, na medida em que fideliza clientes e elimina concorrentes (Wolfgang Mewes). A dispersão de esforços em produtos e actividades diversificadas reduz a capacidade das organizações de virem a ser excelentes, tornando-as medianas e indiferenciadas no que fazem.

A correcta análise da micro fileira industrial em que qualquer organização pretenda vir a desenvolver um negócio é fundamental para formular o produto que vai fornecer, seleccionar os clientes alvo, definir os processos que irá utilizar e estabelecer as competências necessárias para pôr o negócio em marcha, bem como estabelecer a cadeia de valor interna mais adequada para a organização.

 
 

www.gestaototal.com

Samora Correia  -  Açores  -  Porto  -  Lisboa

© 2006 Gestão Total e Inovação Empresarial, GTIE Consultores S.A.