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Artigo

Lados de Uma Fronteira
Por: M. Teles Fernandes

É característica do ser humano observar o que acontece à sua volta. Uns mais, outros menos, todos nós gostamos de tentar perceber o que se passa em nosso redor, mesmo que nada tenhamos que nos relacione com o que possa acontecer. Desta forma não posso deixar de também desempenhar esse meu papel de observador relativamente a certas coisas. A questão que abordo será, por ventura, comum a muitos dos mortais cidadãos portugueses, pecando por falta de originalidade, sem que isso queira dizer que já tenha sido respondida convenientemente a esses mesmos preocupados cidadãos.

Quando viajamos livremente entre o nosso país e o nosso vizinho podemos verificar algumas situações deveras intrigantes e que merecerão alguma reflexão. Se conduzirmos pacatamente por terras alentejanas de Serpa para Espanha, passaremos por Vila Verde de Ficalho e entraremos em território Estremenho sem quase darmos por tal. De facto, não existe nenhuma barreira física entre os dois países que impeça o mais pequeno dos seres vivos de transitar pela fronteira definidora das soberanias. Um pequeno rato não poderá distinguir diferenças entre território Português e Espanhol, primeiro porque esse conhecimento ultrapassa os limites das suas capacidades intelectuais, e depois porque para ele a sua vida tanto se pode desenrolar de um lado como do outro sem que com a mudança territorial possa sentir qualquer diferença. Para um rato, um pombo, um coelho bravo ou outro animal que ainda viva livremente, as fronteiras dos homens não significam nada e não terão, em princípio, qualquer efeito sobre o seu destino.

Contudo esta premissa não se aplica ao homem e ao porco preto. Numa viagem que fiz por essas paragens, tive a oportunidade de parar em Rosal de la Frontera, a localidade Espanhola vizinha de Vila Verde de Ficalho, e entrar numa loja que vende enchidos estremenhos, entre eles o conhecido presunto Ibérico. Tentando pronunciar as palavras de forma compreensível para um Espanhol, tarefa que nem sempre se manifesta fácil, porque me recuso a tentar falar qualquer versão mais ou menos hilariante de Portunhol, a empregada da loja respondeu-me na perfeita língua de Camões, o que me obrigou a questioná-la sobre a sua nacionalidade. Disse-me então que era Portuguesa, de perto de Serpa, mas que trabalhava em Espanha porque ganhava mais do que do nosso lado da fronteira. Disse ainda, em tom de justificação, que só não vivia ainda em terras de Espanha porque tinha casa própria na sua terra natal, mas que, tendo em atenção o custo de vida de um lado e de outro lado da fronteira, com uma botija de gás a ser cinquenta por cento mais cara em Portugal do que em Espanha, bem como muitos outros produtos, vontade não lhe faltava de se passar para o lado de lá. Na continuação da conversa, entre qualidades e preços de presunto Ibérico, pareceu-me que os preços que eram referenciados para os diferentes tipos de produto estavam abaixo dos preços que se conseguem nos armazéns de revenda à volta de Lisboa. A empregada portuguesa da loja espanhola de Rosal de la Frontera confirmou-me tal suspeita, confirmando que a loja irmã que o seu patrão espanhol tinha em Lisboa vendia os mesmos produtos mais caros para se equiparar aos restantes preços de mercado. Mas a minha potencial surpresa aumentou ainda mais quando me disse que os porcos pretos que contribuíam para a feitura do famoso presunto e enchidos ibéricos eram criados em terras alentejanas, transportados para Espanha, onde eram abatidos e transformados, voltando depois a Portugal na sua forma final de produto Premium.

Definitivamente, para nós cidadãos destes dois países vizinhos que formam a península que dá o seu nome ao presunto que é feito num dos lados (nem sempre parece ser todo feito lá), sendo que o que é feito do outro lado (o nosso) não passa de pata negra, e para os porcos pretos, antes e depois de transformados em saborosas iguarias, não é o mesmo viver de um lado ou do outro. Não sei se os porcos pretos estarão preocupados com esta questão, na medida em que podem ver o seu prestígio abalado por confusões de nacionalidade provocadas com base na falta de algum rigor de imagem de marca, mas no que me diz pessoalmente respeito, como cidadão, tenho de estar preocupado, como me parece apropriado prever que os demais cidadãos deste "país para o mar empurrado" também o estarão, com os efeitos que estas constatações, aparentemente sem importância, poderão ter para todos nós. O que provoca estas diferenças, cada vez mais sentidas, entre a nossa economia e a do nosso vizinho? O que fazemos nós cidadãos deste país a menos para não merecer ter as mesmas condições económicas do que as daqueles que estão do lado de lá da fronteira? Mais agora que a moeda única não nos deixa aceitar a ilusão de que a culpa é do valor cambial do já falecido Escudo. Porque razão estão as serras e as terras do lado de lá cultivadas e as do lado de cá de pousio, quando a qualidade das mesmas é igual? Porque são mais baratos os produtos produzidos em Espanha quando o salário mínimo por lá é mais do dobro do que é por cá?

Poderia elencar aqui um conjunto de razões porque tudo isto acontece. Mas parece-me que não me compete a mim fazê-lo, na medida em que não me sinto culpado por tais efeitos, mas antes deixar as respostas para aqueles que terão contribuído para a criação de tal situação.

A verdade, por ser crua, pode doer. Mas a sua ocultação não resolve o problema. As pessoas, independentemente da sua nacionalidade, raça, cultura, educação e outros atributos individuais e colectivos, não aceitam a mentira ou a omissão da verdade de bom grado, e um dia criam formas de o demonstrar ou de alterar a situação. A história prova-o, como também prova a repetição das causas.

O paradigma político, social e económico actual está em crise e, porque se está a tornar insustentável, precisa de reforma.
 

 
 

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Samora Correia  -  Açores  -  Porto  -  Lisboa

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