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Artigo
Uma Visão
Menos Boa
Por: M.
Teles Fernandes
A actual crise dos combustíveis
está a ter um efeito nefasto na nossa economia. Porém, convém
compreender este fenómeno de uma forma alargada.
O custo do crude na origem pouco tem subido, sendo o seu actual preço de
venda nos mercados internacionais fruto da especulação dos diferentes
intervenientes ao longo da cadeia de valor dos combustíveis bem como dos
investidores que fogem de outras áreas de investimento que de repente se
manifestaram bastante perigosas (ex: sub-prime).
A referida subida de preço (em USD) é também resultado da desvalorização
do Dollar Americano que, por sua vez, está a sofrer as consequências da
crise no mercado imobiliário, o qual surge como resultado de uma
anterior viragem dos investidores para áreas de investimento de pouco ou
nenhum valor acrescentado, assentes acima de tudo na especulação e no
consequente falso crescimento económico.
A procura de petróleo tem vindo a aumentar devido ao maior consumo por
parte dos mercados dos BRIC, principalmente do chinês e do indiano,
sendo que o aumento de consumo aparenta não ter um fim à vista a curto
prazo, a menos que algo de anormal a nível global venha a acontecer como
um conflito generalizado ou uma crise económica (ainda mais) profunda.
O aumento do preço do crude, que se reflecte nos custos energéticos
directos e indirectos nos produtores e nos consumidores, tem tornado os
produtos dos países ocidentais menos competitivos no mercado global, com
consequentes efeitos nos mercados de trabalho e no consumo desses mesmos
países.
A instabilidade política no Médio Oriente, com a constante ameaça de
guerra entre Israel e qualquer um dos países árabes vizinhos, bem como a
não solução das crises do Iraque e do Afeganistão, criam nos mercados,
principalmente nos investidores, uma forte retracção a novos
investimentos e, consequentemente, à expansão da economia.
Estes cinco factores alargados, não sendo exaustivos, demonstram que,
tal como nos desastres de aviação, na génese desta crise económica não
está apenas uma coisa que correu, mal mas sim várias e em simultâneo.
Neste momento a crise não é apenas económica. É também financeira e
política, estando-se a iniciar ainda uma social.
É aqui que reside a incerteza quanto ao futuro. Se algum destes factores
se agravar, os outros estão demasiado debilitados para se sustentarem, e
o colapso da economia global estará por um fio. Uma guerra entre Israel
e o Irão, a contenção na extracção de crude por parte dos países
produtores e a continuação do aumento do barril de petróleo, uma
continuada desvalorização do Dollar Americano, ou o colapso dos mercados
financeiros podem, cada um só por si, criar o cenário adequado para o
surgimento de um conflito global. Temos demasiadas provas do passado em
como as nações (e o homem) não conseguem resolver as suas crises senão à
"porrada".
O poder de compra dos cidadãos dos países ocidentais, principalmente U.E.
e E.U.A., está a degradar-se consecutivamente. Sendo o poder de compra
inverso ao custo de vida e sendo este último fortemente influenciado
pelos custos energéticos, onde entram os combustíveis fósseis, a subida
destes está a atingir para muitos analistas o seu valor máximo
suportável. Não obstante a recente correcção para baixo do preço do
petróleo para valores próximos dos 125$/barril. Aparentemente, existe
uma opinião, mais assente na percepção do que numa boa base científica,
de que o valor psicológico dos duzentos dólares por barril de crude é o
topo da zona de aceitação dos mercados, o que corresponderia a um valor
de mais de dois euros por litro de gasolina ou de gasóleo em qualquer
país da U.E., ou correspondentemente, nos E.U.A. perto dos oito dólares
por galão.
Alguns analistas prevêem esse valor do barril de crude ainda para este
ano. Se tal se vier a verificar, num espaço de tempo tão curto, o
impacto que tal fenómeno pode ter no custo de vida dos cidadãos é
tremendo, fazendo com que todos nós, maioria da população dos ditos
países ocidentais, saiamos da zona de tolerância (da de conforto já
saímos há muito). Este fenómeno poderá ter também um forte impacto nos
mercados financeiros, com uma crescente procura dos recursos e um maior
incumprimento por parte dos locatários.
Vejamos o que nos reserva o futuro. As respostas que tivermos em
Setembro e Outubro serão um prenúncio para o futuro a curto prazo.
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